Mulher Maravilha

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prisão

 Eu perco o chão, eu não acho as palavras
Eu ando tão triste, eu ando pela sala
Eu perco a hora, eu chego “no” fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim.

Metade,   Adriana Calcanhoto

O título dessa música da Adriana Calcanhoto já me faz questionar um pouco a respeito dos relacionamentos amorosos. Será mesmo saudável a idéia de que duas metades devam-se unir?

Há alguns anos, eu seria a primeira a levantar a bandeira do sim. Imersa em sonhos românticos e idealizados, não percebia que se entramos como “metades”, certamente é porque nos faltam partes que não necessariamente devam ser supridas pelo outro.

Depois de várias experiências amorosas e do respirar a brisa da maturidade emocional, sinto-me no dever de infomar a quem ainda acredita na “teoria das metades” que essa crença talvez componha o rol das piores falácias amorosas. Exatamente isso!

Para que haja saúde nos relacionamentos, é preciso que estejamos inteiras, donas de nossas vidas e conscientes do nosso próprio valor. Entra em ação a necessidade da autoestima, calcada no velho e sábio mandamento de amar ao outro como a nós mesmas. Sábios tesouros dos quais poucas de nós já se apropriou.

Tenho observado que, embora vivamos nessa aldeia global, moderna e com tantas facilidades, é cada vez mais comum encontrar comportamentos contrários a essa dinâmica, imobilizados pela própria rigidez ou ausência de perspectiva. Não quero, aqui, entrar na avaliação de uma possível relação dicotômica entre contemporaneidade e o comportamento humano, apenas comentar o que percebo, ouço e experimento.

Recentemente, conheci um homem pelo qual me interessei e achei que poderíamos ter um relacionamento até bom, por causa das afinidades e das qualidades dele: doce, bonito, sensual, atleta, sensível e… indisponível. Não aquela indisponibilidade clássica do tipo “sou casado, mas meu casamento está péssimo” ou “não me separo por causa dos filhos”… Não, nada disso. (?!) Uma indisponibilidade que nem mesmo ele conhecia e que acomete muitos homens e mulheres: a codependência.  Foi uma triste decepção.

Mas, que coisa é essa?

A codependência, tecnicamente chamada de “adicção”, é a ilusão de controlar sentimentos interiores, por meio do controle das pessoas, coisas e acontecimentos exteriores, de acordo com os autores Hemfelt, Minirth e Meier (1989).

Essa dependência pode ser um alcoolismo ou uma compulsão por gastos, comida ou drogas, por exemplo. Mas, também – e é disso que estou falando – pode ser aquele vício em pessoas e em relacionamentos problemáticos, destrutivos ou que não valham a pena; aqueles casos em que você não consegue se desvincular e enxergar possíveis humilhações ou situações abusivas pelas quais tenha passado e não vive relacionamentos saudáveis. Sabe quando você vive em função de alguém ou não vê a sua vida sem aquela pessoa? Por fim, isso acaba impedindo novos e saudáveis relacionamentos, podendo transformar-se em transtornos ou depressões? Você sai da sua “casa interna” e já não mora mais em você, ou seja, você se perde se angustia e necessita desse alimento tóxico, seja de que natureza for.

Queridas Patas, isso é mais comum do que se pensa!

Segundo dados divulgados pelo psicanalista Roberto Dantas, 80% das pessoas têm algum grau de codependência em nossa sociedade. Dificilmente diagnosticável, pois não se encontrava na catalogação psiquiátrica DSM, passando a ser considerada no DSM-III como um distúrbio de personalidade. Ainda é cedo para se dizer que seja um distúrbio de personalidade, pois a codependência ainda é muito “jovem” entre nós, e poucos estudos têm sido feitos sobre ela.”

De acordo com a psicóloga Itamara Scaini, “é bem possível que cada um de nós, em nosso inferno particular, deva possuir particularidades e singularidades próprias. No entanto, ao entrar em contato com a codependência afetiva, tenho observado que tal fenômeno faz emergir no codependente, angústias catastróficas e ansiedades dilacerantes.”

O assunto requer uma profundidade mais cuidadosa. Como cisnes que queremos ser, precisamos navegar linda e superficialmente nesse lago, sempre alerta, observadoras e amantes de si mesmas!

Logicamente, nenhum ser humano está isento de uma certa “dependência saudável”, digamos assim, porque não somos autossuficientes. Gostamos de nos relacionar, precisamos da afetividade e do estímulo de outros e isso implica o equilíbrio da alternância entre dar e receber, precisar e ter para dar.

Porém, o mais importante é saber mensurar e exercer esse grau de alternância. Nem egoísta e autossuficiente (ilusão!) demais, nem dependentes do outro para sermos felizes, saudáveis e equilibradas. Do contrário, estaremos sujeitas à deterioração da nossa própria autonomia e navegaremos em direção à dependência emocional destrutiva.

O ideal é analisar-se, reconhecer e buscar ajuda, seja por meio de terapias tradicionais, holísticas e psiquiatria, seja por meio de grupos de apoio, que dão muito certo também.

Há dois grupos interessantes, gratuitos, espalhados por todo o Brasil:
www.mada.org.br

www.codabrasil.org

Vamos navegar em lagos cristalinos e saudáveis!

Para saber mais, recomendo alguns livros:
Co-dependência nunca mais e Para além da co-dependência (Melody Beatty)
Acolhendo a pessoa amada (Stephen Levine)
Mulheres que amam demais  (Robin Norwood)
Em busca de uma psicologia do despertar (John Welwood)


Mônica Mourão

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Perfil

Mônica Mourão - Jornalista por vocação. Acredito nos sonhos e nas pessoas. Amo animais, sobretudo os gatos. Tenho uma tatuagem e um piercing. Adoro lojas de produtos naturais. Trabalho com números, mas amo as letras. Ana Cláudia Sivieri - Escritora, fotógrafa e terapeuta. Ama viagens e filosofia pois elas representam a expansão da nossa própria alma. Acredita na transformação das pessoas e da vida, em seu constante movimento, daí vem sua curiosidade nata sobre as almas humanas.

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